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‘Anjo da Sorte’: Keanu Reeves desce dos céus

Escrita e realizada em estreia por Aziz Ansari, que também desempenha um dos papéis principais, ‘Anjo da Sorte’ é uma comédia sobrenatural em que Keanu Reeves interpreta um anjo da guarda que acaba a viver entre os humanos em Los Angeles.

Escrito por
Eurico de Barros
Anjo da Sorte
Eddy Chen/Lionsgate | Keanu Reeves e Sandra Oh em ‘Anjo da Sorte’
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No filme de culto Constantine, de Francis Lawrence (2005), Keanu Reeves interpreta um detective que tem que enfrentar demónios que querem entrar no nosso mundo. Em Anjo da Sorte, uma comédia fantástica que marca a estreia a realizar de Aziz Ansari, também autor do argumento e intérprete, e se passa em Los Angeles, Reeves está desta vez do lado sobrenatural, personificando Gabriel, um anjo que ajuda humanos. Só que, segundo o filme nos mostra, há uma hierarquia muito rigorosa e exigente entre os anjos da guarda, e Gabriel encontra-se mesmo no nível mais baixo dela. Basta olhar para as suas asas pequeninas, que não permitem que voe, para percebermos isso. Abaixo disto, só mesmo os anjos estagiários.

Gabriel tem funções consentâneas com a sua posição na cadeia hierárquica angélica. Que se limitam a estar instalado no assento de trás dos automóveis e impedir que pessoas que enviam mensagens no telemóvel, enquanto estão ao volante, tenham acidentes. Só que Gabriel tem ambições e quer fazer coisas mais importantes, como o seu colega Azrael, que salva almas e tem um enorme par de asas. Um dia, Gabriel impede que Arj (Aziz Ansari), um pobre diabo que quer ser documentarista, faz vários biscates para sobreviver e vive no carro, se estampe quando estava a conduzir e a teclar no telemóvel. Arj desperta o seu interesse e por isso Gabriel passa a segui-lo.

Arj começa então a trabalhar como assistente para Jeff (Seth Rogen), um rico e expansivo investidor que esbanja dinheiro com a naturalidade de quem respira. Quando este o despede subitamente, Arj descobre que não pode voltar ao seu antigo part-time a entregar comida, tem que ir doar sangue para conseguir algum dinheiro, adormece de fraqueza num restaurante de fast-food, e quando acorda descobre que a polícia lhe rebocou o carro. Cheio de pena dele, Gabriel quebra então as regras a que está vinculado, aparece a Arj e, para o animar, mostra-lhe como será o seu futuro – que se revela ser remediado e sem grandes esperanças de melhorar. 

Anjo da Sorte
Eddy Chen/Lionsgate

Quando Arj se queixa deste futuro pouco entusiasmante que lhe foi mostrado, o anjo diz-lhe que ter sucesso e dinheiro com Jeff não é tudo na vida. Para o provar – e infringindo mais uma vez as regras celestes – Gabriel faz Jeff e Arj trocarem de corpo. O segundo começa a viver a vida dura e pobretanas do primeiro, enquanto que aquele passa a ficar instalado na casa ultramoderna do antigo patrão, e a usufruir de todas as suas comodidades, e a beneficiar dos seus muito lucrativos investimentos. E não só Arj vai regalar-se por ver todos os seus problemas resolvidos graças ao dinheiro, como Gabriel é punido pela supervisora, Martha, por ter prevaricado. Perde as asas e os poderes e tem que ir viver como um humano, acabando a lavar pratos com Jeff e a partilhar a cama de um motel manhoso com ele. E as confusões não vão ficar por aí, porque Jeff, muito naturalmente, quer a sua vida de volta.

Anjo da Sorte
Eddy Chen/LionsgateSeth Rogen

Inspirando-se em filmes como Do Céu Caiu Uma Estrela, de Frank Capra, As Asas do Desejo, de Wim Wenders, Os Ricos e os Pobres, de John Landis, ou Se Eu Fosse a Minha Mãe, de Gary Nelson, Aziz Ansari disse que, com Anjo da Sorte, quis realizar um filme que, “sempre em tom de comédia satírica, abordasse temas sérios e actuais”. É o caso da proliferação da chamada gig economy, a entrega de comida e outros bens por pessoas em condições laborais precárias, da crise de alojamento ou da crescente robotização da indústria, que se está a estender a outros sectores da economia e aos serviços. 

Por trás de cada gargalhada de Anjo da Sorte, há algo que nos faz reflectir, e é mérito de Ansari que essa reflexão não pese no filme e não seja impingida ao espectador. Esse mérito é também repartido com Keanu Reeves, cuja personagem de Gabriel se “alimenta” da imagem cordial e bonómica do actor, conhecido por aparecer regularmente em público em actividades quotidianas, como se fosse um cidadão comum e não uma estrela de cinema, a apanhar transportes públicos e a interagir natural e simpaticamente com as pessoas. O realizador brinca com ela e com o carisma de Reeves, e o filme torna-se ainda melhor por isso. E, se existem mesmo anjos da guarda, quem é que não gostaria que o seu fosse igualzinho a Keanu Reeves (mesmo que ele fosse também um pouco desajeitado como Gabriel)?

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