2020 ainda vai a meio, mas podemos dizer que está a ser um ano trágico para as artes performativas em Portugal. A paralisação da cultura provocada pela pandemia fez com que uma grande parte dos artistas e profissionais deste sector (e de muitos outros) ficassem sem trabalho. Sem meios de subsistência, sem possibilidades de compensar num mês o que perdeu no outro, sem acesso a apoios dignos. As críticas às medidas débeis e insuficientes do Ministério da Cultura foram amontoando-se, e os movimentos reivindicativos foram ganhando corpo. E assim continuam, agora também nas ruas – no passado dia 4 de Junho, houve uma manifestação nacional de trabalhadores da cultura e das artes nas cidades do Porto, Lisboa e Faro.
É neste cenário turbulento e desolador que alguns teatros do país começam a desconfinar, tendo de obedecer a uma série de normas que ficaram definidas a menos de uma semana da reabertura, como a ocupação máxima das salas até 50%, as distâncias entre espectadores (um lugar de intervalo entre cada um, excepto se forem coabitantes, com uso obrigatório de máscara) e a higienização completa das salas antes da abertura de portas e após cada sessão. Além destas coordenadas, há um conjunto de regras que têm de ser cumpridas pelas equipas dos teatros no seu dia-a-dia.
Este pacote de medidas implica gastos extra muito significativos, o que faz com que várias estruturas independentes não tenham meios para retomar a actividade, alerta a Plateia – Associação de Profissionais das Artes Cénicas. Por isso mesmo, a reabertura das salas de espectáculos “não significa a retoma do sector”. O regresso aos palcos com perspectivas de futuro é, por enquanto, um privilégio de alguns. “A grande preocupação que se devia ter neste momento é como apoiar as pequenas estruturas e espaços que fazem quase 90% do tecido criativo do país”, defende Nuno Cardoso, encenador e director artístico do Teatro Nacional São João (TNSJ), no Porto. “Tal como a pandemia, esta é uma realidade assimétrica.”
Além do Theatro Circo (Braga), do Teatro Aveirense (Aveiro), do Teatro Viriato (Viseu) ou do Teatro Villaret (Lisboa), o TNSJ é um dos teatros que está a voltar à vida offline, mas sem pressas. Até Julho vão estar abertos ao público apenas o Centro de Documentação e as bilheteiras. Em Agosto dá-se o arranque antecipado da temporada, com a estreia de O Burguês Fidalgo, de Molière, pela Palmilha Dentada, e com a apresentação de Castro, de António Ferreira, numa encenação de Nuno Cardoso. Castro chegou a estrear no Teatro Aveirense, mas a digressão foi interrompida pela pandemia. “Como encenador, estou numa situação afortunada porque tinha acabado de estrear uma peça – uma peça que é sobre o confinamento medieval do amor”, diz o director artístico do TNSJ. A equipa vai voltar em breve aos ensaios, que vão servir “de teste” para os que se seguirão, tanto no que toca às produções do TNSJ como às co-produções, que implicam o acolhimento temporário de artistas e companhias.
“O TNSJ começará a trabalhar caso a caso, fazendo um esforço para que cada projecto não tenha de passar por uma alteração profunda do seu método criativo.” Estes novos tempos exigem toda uma reestruturação logística em várias frentes: ensaios parciais, roupa usada exclusivamente para os ensaios, diferentes circuitos de deslocação para as várias equipas do teatro, adereços e figurinos que já não podem passar de mão em mão, entre muitos outros procedimentos. No que diz respeito aos espectáculos, e artisticamente falando, Nuno Cardoso acredita que não vai ser assim “tão esquisito” ver uma plateia toda de máscara. “Não estraga a essência da coisa.”
Fernando Mora Ramos, encenador e director artístico do Teatro da Rainha não está tão convicto. “O facto de os espectadores estarem de máscara, e separados uns dos outros, é completamente diferente”, afirma. “Perde-se alguma daquela energia que é típica de uma assembleia e que faz a especificidade de uma plateia de teatro.” A companhia sediada nas Caldas da Rainha vai estrear, no dia 24, uma adaptação de O Discurso do Filho da Puta, de Alberto Pimenta, numa parceria com o músico Miguel Azguime. A reconfiguração da programação fez com que este projecto “aumentasse de escala”, convertendo-se num espectáculo de palco que ficará em cena durante três semanas. De resto, Fernando Mora Ramos recusa-se a ceder ao medo do coronavírus. “Não somos de panicar. Os espectadores têm o desinfectante à entrada, temos os circuitos de entrada e saída pensados e vamos alargar o espaço.”
Em Julho, o Teatro da Rainha irá acolher um espectáculo dos Artistas Unidos, companhia de Jorge Silva Melo com residência fixa no Teatro da Politécnica, em Lisboa, que reabre a 27 de Agosto com a reposição do solo Uma Solidão Demasiado Ruidosa, de e com António Simão. Esta sala enfrenta dificuldades bastante diferentes das dos teatros nacionais ou municipais. “Podemos contar com a afluência de espectadores? Para uma sala que, na melhor das hipóteses, terá 40 lugares? Como vamos instalar todas aquelas medidas num espaço tão pequeno? E pagamos renda”, resume Jorge Silva Melo.
Apesar de terem apoio da DGArtes, a pandemia deixou os Artistas Unidos numa situação difícil. “A DGArtes cobre cerca de 45% da nossa actividade num ano normal. Os restantes 55% têm sido garantidos ou por co-produtores ou por apoios específicos ou por receitas próprias. E agora? Não só as despesas vão aumentar uns 30%, como as receitas até agora desceram impressionantemente: 30.000 euros previstos no primeiro trimestre que não se realizaram”, nota Jorge Silva Melo. “Gostávamos de poder continuar a trabalhar, mas a realidade é a realidade. Sem apoios para esse aumento, não poderemos fazer teatro.”