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O segundo episódio de How To With John Wilson, que pode ser descrito como um documentário sobre a cidade e as pessoas de Nova Iorque, foca-se nos andaimes. Através das lentes do documentarista, percebemos que eles têm funções como proteger os cidadãos, custam seis mil milhões de dólares aos contribuintes e — acima de tudo — o quanto mudam o cenário de uma cidade. Não é difícil transportar esta realidade para Portugal e é, precisamente, este cenário urbano que imaginamos quando ouvimos “Cidade”, um dos destaques de Ela Caiu, álbum de estreia dos Marquise, editado esta sexta-feira, 28 de Fevereiro.
A banda, formada por Mafalda Rodrigues (voz), Matias Ferreira (baterista), Miguel Azevedo (baixista) e Miguel Pereira (guitarra), é uma das mais recentes coqueluches da cena musical do Porto. Com um óptimo EP — homónimo, lançado em 2023 — como carta de apresentação e uma série de grandes concertos de norte a sul de Portugal, que, inclusive, lhes valeu o prémio Melhor Concerto Super Emergente, existiam bastantes expectativas para perceber o que os jovens (o guitarrista tem 22 anos, os restantes membros têm 21) estavam a preparar no primeiro longa duração.
A Time Out esteve à conversa com o grupo, que apresenta Ela Caiu no CCOP (Porto), a 21 de Março, e dia 27, no Musicbox, e não tardou a voltar a pensar neste episódio da série de John Wilson. “Não sei se a Mafalda se lembra”, diz Miguel. “Mas tivemos algumas conversas sobre o desencantamento de viver numa cidade e como está a acontecer uma descaracterização destes espaços. Um dos episódios que ela me contou foi de um hotel que esteve a ser construído à frente da casa dela, no Bonfim, durante uns três anos. Quando olhava pela janela, só via gruas”, recorda.
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É um dos principais temas de Ela Caiu, que chegou a ter como possível título “Cidade” — opção descartada porque o grupo não queria que o disco tivesse o mesmo nome de uma das músicas, para esta não ter mais destaque que as restantes. “Andaimes por tudo o que é sítio / Já não há uma cidade em liso / Cabe-me a mim pensar neste rodízio / Arranha-céus só os sabem”, canta a vocalista nessa faixa.
“Estou a estudar Arquitectura e isso influencia a maneira como observo o mundo”, diz-nos Mafalda. “A ‘Cidade’ é uma das canções mais antigas do álbum. A primeira parte é muito frenética e aborda o desenhar e construir de uma cidade e pensar o que é que pode resultar daí. Depois, ela transforma-se num momento de reflexão porque é quando percebo que não há mais nada além do alcatrão, do betão e de todo este mundo cinzento e controlado. É um ciclo que não pára”, descreve.
Este caos é algo que dá o mote do refrão da canção — “A cidade não pára / A cidade, ela não pára”. “Quando eu digo isto, não me refiro apenas às pessoas e à agitação. A mensagem é que a cidade está sempre a transformar-se. É um mutante em constante construção”, explica ela. Ainda que não seja um sentimento exclusivo ao Porto, este local foi a grande inspiração para esta canção. “Há uma grande ligação com o Porto ao longo do álbum e que tem um papel importante não só nas letras, mas também no instrumental. Se não fôssemos do Porto, não sei se teríamos o mesmo resultado.”
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Este é um álbum com os pés assentes no presente. Quem o diz é a própria Mafalda, afastando, por exemplo, a hipótese de “A Cidade” ser uma canção nostálgica e onde deseja regressar a um passado em que as metrópoles eram mais calmas. É também um álbum mais introspectivo.
No EP encontrávamos canções como “Meninas Bonitas”, onde, com um espírito de riot grrrl, Mafalda cantava sobre a forma como via as mulheres a serem tratadas. “Ela ouve os piropos emitidos / Quase que parecem radioactivos / Farta vai / Com preocupação”. Agora, apesar deste sentimento ser exprimido de uma forma menos directa, é feito de uma forma críptica — um pouco na escola de Kurt Cobain — que abre mais espaço para interpretações. “São decisões, não são prisões / Não preciso da tua companhia, nem da tua mania”, ouve-se em “Não quero ser”.
“Nós os quatro somos feministas”, esclarece Matias. “Esta atitude na música está a crescer. Os músicos estão fartos. Se há um lado que tem a liberdade de dizer o que pensa sem medo de se expor, nós também temos direito de nos sentirmos incomodados. Acho que exprimir isto na música é uma óptima resposta”, argumenta.
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Mafalda refere que este é um tema impossível de escapar. “Intrinsecamente, vou cair sempre nesse discurso”, começa por explicar a letrista. “Mesmo que não seja esse o meu primeiro pensamento quando escrevo, é normal ir lá parar, sou uma rapariga. Obviamente vou falar sobre o que me rodeia e me preocupa.” No entanto, não se quis fechar neste tópico, nem expor-se demasiado — daí as letras serem escritas desta maneira surreal. “Não queria cair demasiado nestas afirmações feministas nem queria falar muito de mim. Quis abordar problemas mais amplos para as pessoas conseguirem reportar o que quiserem e sentirem-se também no mundo delas.”
Ainda assim, a vocalista sente-se bem representada pela cena musical onde está inserida — mesmo que não sejam as temáticas mais radio-friendly ou ear-candy. “As questões de género são complicadas e, infelizmente, não estão a melhorar tanto quanto deviam ou quanto gostava. Pelo menos, no panorama português, estamos rodeados por uma massa crítica muito forte e sem papas na língua”, elogia.
Musicbox Lisboa. 27 Mar (Qui). 20h30. 11,01€
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