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Rui Moreira pode não ser um daqueles nomes imediatamente reconhecíveis do panorama artístico nacional, mas desde o início deste século que a sua criação tem sido profícua e apresentada sobretudo além-fronteiras e em exposições colectivas. Desde esta quarta-feira e até Junho, o MAAT dedica-lhe várias salas no edifício da antiga Central Tejo. Sem obedecer a uma cronologia rigorosa, "Transe" é a antologia de mais de 20 anos a trabalhar, a criar e a reclamar o tempo essencial à arte.
"A minha exposição perfeita será sempre uma antologia, ou uma retrospectiva, acrescentando os novos trabalhos, misturando e mudando a ordem das coisas. O que vêem nesta exposição sou eu, nada mais do que isso. Não há qualquer diferença entre o meu trabalho e a minha vida", declara o artista, numa primeira visita guiada, na véspera da abertura ao público. Absorto no processo criativo, demorando-se no tempo sem sequer o contar, Rui Moreira assume o transe como necessário à criação artística – das pequenas telas, estudos e esboços às obras que se impõem pela dimensão.
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"Muitos destes desenhos de grandes dimensões têm mais de mil horas de trabalho. Por isso é que o tempo é tão importante e tão estrutural. Não acredito na velocidade, acredito na lentidão, que só na lentidão é que se pode fazer arte, da mesma forma que só na lentidão é que se pode ver a arte. Este é o meu tempo", continua.
Através do desenho e da pintura, sempre com alto contraste a duas cores, o artista tem representado várias latitudes. Numa das salas, as dunas transportam-nos para o deserto – ou melhor, para 12 anos de sucessivas viagens a Marrocos. A mais pequena das peças é também um dos poucos desenhos à vista presentes na exposição, feito sob o sol quente do deserto do Norte de África, com o termómetro a marcar 45 graus, de lapiseira na mão e guache ao lado. A partir do suave pontilhado nasceu toda uma série de trabalhos, já no atelier em Lisboa.
A observação demorada e a vontade de captar profundamente paisagens, figuras e tradições é visível noutras salas. Das passagens pela Índia, trouxe as danças milenares da região de Kerala e os símbolos pintados no rosto de quem as dança. As origens transmontanas levaram-no a exploram ainda o folclore regional, em particular os Caretos de Podence. Do cinema, chegam outras referências. Fitzcarraldo, de Werner Herzog, inspirou um grande quadro em torno do homem que quis cruzar uma montanha com um pesado navio e construir uma ópera na selva peruana. Das leituras de Proust resultou um ano a desenhar apenas com luz artificial.
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O tempo na arte é uma reflexão que atravessa toda a exposição, mas não só. No dia 6 de Maio, Rui Moreira vai dar uma aula no MAAT. A sua prática e a importância do transe no seu processo de trabalho serão temas abordados. Tempo não faltará – a aula terá uma duração de 12 horas.
"Gestos" – seis filmes de Ana Léon
No espaço Cinzeiro 8, também na antiga central energética, o MAAT inaugura "Gestos", um conjunto de pequenos filmes que marca o regresso da artista portuguesa, fixada em Paris, ao calendário lisboeta. Mais do que instalações, Ana Léon chama "envolvimentos" às fitas agora exibidas ininterruptamente – também até 2 de Junho – em seis salas escuras e isoladas, para que imagens e sons não se contaminem.
Tecnicamente, Léon utilizou a animação em stop motion, película e uma máquina de filmar Super 8 para captar um conjunto de figuras masculinas, bonecos articulados Action Man com 25 centímetros de altura, desprovidos de qualquer expressividade. "Ana Léon boicota também o papel convencional dos tradicionais bonecos animados, ao negar-lhe toda a dimensão narrativa: de facto, nos seus pequenos filmes, nada se passa ou o que se passa é exclusivamente do domínio do descritivo", escreve o curador, João Pinharanda, no guia de exposição.
Avenida de Brasília (Belém). Qua-Seg 10.00-19.00. Até 2 Jun. 11€ (entrada gratuita no primeiro domingo de cada mês, até às 13.00)
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