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O wrestling é fixe outra vez?

Numa altura em que muitos fãs estão a voltar a esta modalidade e a WWE tem na Netflix uma nova casa, fomos tentar perceber como é que a moda do wrestling está a crescer em Portugal.

Hugo Geada
Escrito por
Hugo Geada
Jornalista
Wrestlefest
Marie Lumière | Wrestlefest
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Este artigo foi originalmente publicado na revista Time Out Lisboa, edição 672 — Inverno 2025

“Isto não é tudo combinado?” A pergunta mais frequente entre os fãs portugueses de wrestling deixou de ser esta. A dúvida – ou o menosprezo – deu lugar a uma questão prática: “Onde é que podemos ir ver umas lutas?”.

O país viveu uma febre de luta livre no final da década de 2000. Foi uma altura em que o então Pavilhão Atlântico recebeu diversos espectáculos da WWE, a maior empresa de wrestling do mundo, com eventos que mobilizavam mais fãs do que os concertos dos Rolling Stones, tal como noticiou o Jornal de Notícias em 2006. Nos recreios das escolas, os jovens imitavam o poderoso Dave Batista ou o ágil Rey Mysterio, transformando-os num palco perigoso.

Actualmente, os ídolos são outros, com lutadores como Cody Rhodes e Roman Reigns a ocuparem as luzes da ribalta, mas – após longos anos em que a modalidade esteve mais adormecida – existe um renovado interesse no produto. Este ano, a WrestleMania XL, o maior evento da WWE, tornou-se o mais bem-sucedido da história da empresa, e o Raw (o principal programa televisivo da companhia) foi adquirido pela Netflix e estreou-se na plataforma de streaming a 6 de Janeiro de 2025.

Este interesse é reflectido na realidade portuguesa, com um entusiasmo crescente em assistir a espectáculos em território nacional.

CTW
DRCTW

Hoje, nomes como o Centro de Treinos de Wrestling (CTW), o Wrestling Portugal (WP) e o Wrestlefest estão a vingar em Lisboa, enquanto a Associação Portuguesa de Wrestling (APW) é motivo de peregrinações até Portimão.

“O wrestling é uma actividade que depende do público”, explica-nos Abreu, lutador do CTW. “Se o público está em alta, o wrestling está em alta. Estão interligados. Seja por uma questão de moda – devido ao investimento de plataformas como a Netflix – ou pela qualidade do trabalho desenvolvido por vários projectos no wrestling nacional, a verdade é que o público está a crescer e o interesse está a aumentar”.

Não é apenas o público. “Nós vemos isto no número de e-mails que recebemos, seja a pedir trabalho, espectáculos, publicidade, para alugar o ringue ou até pela quantidade de alunos que recebemos no nosso dojo. Está tudo em alta. Diria que é uma tendência que continuará nos próximos cinco anos”.

Onde podemos então, em Lisboa, ouvir o sino do ringue e ver pessoas suadas (sobretudo homens) a combater?

Do ringue no quintal para a conquista do wrestling nacional

O CTW é uma das mais bem-sucedidas empresas de luta livre em Portugal, e tudo começou como um sonho para Red Eagle, o lutador mascarado, treinador e fundador desta empresa (que nos pediu para não revelar o seu nome verdadeiro).

“Comecei por ver a WCW muito novo, quando ainda passava na TV Cabo e via o Sting a lutar”, explica o atleta de 33 anos, referindo ainda que, mais tarde, assistia religiosamente à WWE na SIC Radical, replicando um hábito que marcou todos os outros entrevistados.

Isto foi alimentando um bichinho dentro de Red Eagle. Quando percebeu que não podia ser um Power Ranger, decidiu que queria ser lutador de wrestling. Durante muito – MUITO – tempo, chateou o pai para construir um ringue no quintal.

CTW
DRCTW

Ao longo de um ano, com uma máquina de soldar que só funcionava durante 30 minutos até sobreaquecer, foi trabalhando e adaptando a estrutura até ficar funcional e apta para receber suplexes (manobra clássica de luta livre) entre os lutadores. Actualmente, este ainda é o ringue que o CTW usa e pelo qual já passaram atletas internacionais como Zack Sabre Jr., Paul London, Pete Dunne ou Tajiri.

Mas, antes de chegarmos ao CTW, este ringue ajudou Red Eagle a entrar no circuito da modalidade. “Na altura, apesar de ainda não estar a treinar, mandei uma fotografia da construção do meu pai para o Duplo Impacto, um programa com o Diogo Beja e o Jorge Botas na SIC Radical sobre wrestling. Eles mostraram as imagens num episódio e, passados uns dias, fui contactado pela NWR – National Wrestling Revolution. Eles queriam usar o meu ringue para fazer um evento e treinar. Foi assim que me envolvi neste mundo”, recorda.

Antes de começar a treinar, acompanhava lutadores e ajudava no que fosse preciso. Quando chegou a altura de finalmente se equipar e aprender os movimentos e truques desta modalidade, nos primeiros treinos, precisava da ajuda do pai para apertar as botas.

Até podes ter o melhor produto do mundo, mas se ninguém o consumir ou o conhecer, de que é que vale?

Treinou em diversos países, como Espanha, França, Inglaterra, Japão e Dubai, e passou pela APW e outras empresas nacionais, até concluir que já tinha aprendido tudo o que podia. Era hora de pôr as mãos à obra e começar o seu próprio projecto.

Com a ajuda de David Curle, apresentador de ringue com contactos em várias partes do mundo, fundou o CTW, em 2009. Com um dojo situado na Ajuda, em Lisboa, é aqui que os lutadores treinam quatro vezes por semana e se preparam para os espectáculos que acontecem ao longo do ano. “Na altura pensei: se conseguem fazer isto em Inglaterra ou Espanha, porque não poderia fazer o mesmo em Portugal? Tinha uma visão muito empresarial deste negócio”, explica.

Red Eagle destaca que um dos diferenciais do CTW é estabelecer parcerias com empresas de todo o mundo. Isso ajuda os seus estudantes a aprender novos estilos e confere maior visibilidade à marca. No entanto, sublinha que não há tratamentos especiais. “Quando comecei a lutar e havia estrelas internacionais nos nossos eventos, como o Rob Van Dam ou o AJ Styles, havia uma divisão no balneário. A parte onde os lutadores portugueses se vestiam tinha um cartaz que dizia ‘portuguese monkeys’. Não aceito nada disto no CTW. Aqui, somos todos iguais”, reforça.

CTW
DRCTW com músicos da Cuca Monga

O promotor não quer que estas parcerias sejam efémeras; quer que os lutadores internacionais façam boa figura nos seus espectáculos, de forma a atrair mais fãs e, ao mesmo tempo, ensinar os portugueses a tornarem-se estrelas. Eagle não quer cometer os mesmos erros do passado. “O problema do wrestling nacional nunca foi a falta de talento. É mesmo falta de perceber o empreendedorismo que tem de haver por trás do desporto. Nós temos despesas para resolver, carrinhas para transportar o ringue, promover os espectáculos”, justifica.

Nesse sentido, a empresa tenta estar presente no máximo de eventos possível. Este foi o ano em que a CTW fez mais eventos. Além dos espectáculos pagos na Sociedade Filarmónica Agrícola Lavradiense (SFAL), no Barreiro, organizaram eventos gratuitos na cervejaria Fermentage, em Marvila, assim como na Lisboa Games Week ou no Vagos Metal Fest. “Até podes ter o melhor produto do mundo, mas se ninguém o consumir ou o conhecer, de que é que vale?”, argumenta Abreu, jovem lutador natural de Guimarães.

O atleta ingressou na CTW quando entrou na faculdade, não só para continuar em forma e, finalmente, praticar esta modalidade, mas também porque encontrou aqui uma comunidade que o podia ajudar nesta transição para uma nova cidade. Além de um desporto e um empreendimento, o wrestling também pode ter este lado social e humanitário. É por isso que Red Eagle e Abreu nos falam da importância das visitas que fazem, por exemplo, a CERCIs, que são organizações que apoiam a reabilitação e integração social de crianças, jovens e adultos com deficiência mental ou físicas.

Esta é uma das características que distinguem a CTW da concorrência, mas a empresa não está à espera de braços cruzados. Também está a lutar para elevar esta modalidade em Portugal.

De Queluz ao Parque Mayer

O WP, por outro lado, surgiu com um grupo de lutadores de wrestling em Lisboa que queria criar a sua própria companhia. Alguns tinham treinado em locais como o Reino Unido; outros, em Portugal, na APW. Decidiram, então, unir-se e formar o seu próprio grupo.

O foco desta empresa são os treinos de wrestling, todos os sábados no Centro Shotokai, em Queluz, e tem uma actividade menos regular do que a CTW. “Fazemos seis espectáculos por ano”, explica João Sena, actual detentor do WP National Championship, que, dentro do ringue, responde pelo nome de Pegasus. “Por vezes, entramos em publicidade ou temos lutadores a participar em programas de televisão, como foi o caso, no ano passado, com o Vale Tudo, e este ano com o Congela e o Rir para Ganhar”.

Sena sempre teve um grande interesse por desportos de combate (foi praticante de karaté kyokushinkai) e filmes de acção. A ponte entre ambos era óbvia. “Percebi que o wrestling misturava a técnica de artes marciais com o espectáculo dos filmes de acção, então era perfeito para mim”.

CTW
@marielumiereJoão Sena

A inspiração nos filmes também se manifesta nas narrativas dos espectáculos. Nos seis eventos anuais da WP, existe uma narrativa condutora que leva de um espectáculo ao outro, similar às temporadas de séries de ficção. “Os nossos espectáculos não são transmitidos em lado nenhum, apenas podem ser totalmente apreciados ao vivo, e as nossas histórias são feitas para tentar apelar ao público generalista. A ideia é que qualquer pessoa que vá ver um dos nossos espectáculos consiga desfrutar do momento e acompanhar as histórias, mesmo que não seja adepta de wrestling”, explica.

O Wrestlefest é um pouco diferente dos exemplos acima mencionados. Em primeiro lugar, não é uma companhia tradicional com um elenco fixo de lutadores. É um evento criado por Nelson Pereira (também lutador na WP) que mistura atletas de várias promotoras nacionais.

Nelson decidiu entrar no mundo do wrestling depois de conhecer duas grandes estrelas da WWE, Wade Barrett e Natalya, em 2012, num espectáculo em Portugal. No entanto, o lutador que mais o influenciou, nesse dia, foi Baltazar (actualmente campeão da APW), que o incentivou a praticar esta modalidade.

Servimos como ponto de entrada para as pessoas conhecerem o wrestling e, depois, irem ver as lutas das outras companhias.

Começou na CTW, em 2013, e, em 2022, juntou-se à WP, apesar de se ter afastado da luta livre durante a pandemia. Mas essa ausência não durou muito tempo. “Durante a pandemia era para ter acontecido um evento que ia juntar, pela primeira vez desde que estou no wrestling, várias escolas portuguesas. Infelizmente, foi cancelado, mas juntei-me com uns amigos, que também são lutadores, e desafiei-os a criarmos o nosso próprio evento, de forma a coincidir com o meu aniversário”, descreve Nelson.

Com o apoio da Câmara de Almada, este sonho tornou-se realidade. Desde 2023, o Wrestlefest tem organizado eventos na cidade da Margem Sul e em Lisboa, no Parque Mayer – algo que deixa Nelson especialmente orgulhoso, pois foi aqui que aconteceram os primeiros combates de wrestling nacional.

A missão do Wrestlefest é diferente quando comparada com a concorrência. O foco é montar o maior espectáculo possível para surpreender os espectadores, quer sejam fãs da modalidade ou não. “As outras empresas de wrestling montam espectáculos focados nos fãs que apenas querem ver lutas. Nós temos a preocupação de ter uma produção maior”, descreve. “Com as ajudas que recebemos, conseguimos levar um ecrã ou um projector e luzes. Queremos montar um espectáculo e garantir que tem entrada livre. Servimos como ponto de entrada para as pessoas conhecerem o wrestling e, depois, irem ver as lutas das outras companhias”, afirma.

Um futuro risonho

É fácil perceber por que razão estes entrevistados estão confiantes em relação ao futuro da luta livre em Portugal. Estão mais ocupados do que nunca e isso tende a continuar a crescer.

“Estamos na melhor fase desde há muito tempo”, diz-nos Nelson. “Estamos numa fase em que as pessoas estão mais interessadas em coisas de nicho e esta bolha está a manifestar-se com uma grande representação. Antes da pandemia, se fizéssemos um show com 100 pessoas, era razão para abrirmos uma garrafa de champanhe. Hoje, é um número que nos desilude. O último Wrestlefest que fizemos em Lisboa teve cerca de 400 pessoas. Antigamente, isto era impensável", confessa, reforçando a ideia de que a transição da WWE para a Netflix vai trazer ainda mais fãs para os espectáculos.

Nelson Pereira
@marielumiereNelson Pereira

João Sena reforça a importância do trabalho feito internamente por cada empresa e atleta. “Quando o wrestling regressou a Portugal, graças à SIC Radical, em 2004, teve um enorme crescimento em popularidade, mas foi apenas uma moda que pouco efeito teve no wrestling português. As pessoas eram fãs de WWE, mas não se interessavam pelo wrestling nacional. Hoje estamos melhores e vamos continuar a melhorar, mais unidos, a entreajudarmo-nos e a chegar a cada vez mais público. Ainda encontro pessoas que gostam de wrestling, mas que não sabiam que existe wrestling em Portugal. Nós não temos orçamentos para chegarmos a toda a gente com grandes campanhas publicitárias, mas, pouco a pouco, lá chegaremos."

Além de chegar a cada vez mais pessoas, Red Eagle diz-nos que espera que esta modalidade seja mais reconhecida por outros atletas. “Já não é simplesmente um fã que quer fazer wrestling. São também atletas de outros desportos que querem começar a praticar. Isto é uma forma também de perceber o nosso crescimento”, explica o lutador mascarado. “Os desportistas começam a respeitar mais o nosso trabalho, porque o trabalho do wrestler é uma arte. Quando subimos para um ringue, temos de ler o público e o nosso oponente, enquanto nos preocupamos para não o aleijarmos. O wrestling é mais do que um desporto normal. É uma das modalidades mais completas do mundo.”

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