[title]
Os anos parecem não passar por Noah Lennox, o Panda Bear dos Animal Collective. A viver há 20 anos em Lisboa, continua a falar e a fazer música com o mesmo entusiasmo que tinha quando se mudou para cá, com 25 anos. Ou quando lançou o primeiro álbum, em 1999, no que diz ser a sua “pré-história” artística, quando ainda “estava só a imitar coisas de que gostava”. Antes de viajar para os Estados Unidos, onde se encontra em digressão, estivemos à conversa nos escritórios da Popstock, que distribui os discos da Domino, entre outras editoras, em Portugal. O mais recente, Sinister Grift, foi co-produzido por Panda Bear e Joshua Dibb – mais conhecido como Deakin, que toca com ele em Animal Collective – e acaba de ser editado em todo o mundo. Este álbum, luminoso e orgânico, vai ser apresentado ao vivo no Capitólio a 20 de Março, uma quinta-feira. No dia seguinte, Noah e a banda que agora o acompanha ao vivo, composta pelo baixista Tim Koh (ex-Ariel Pink’s Haunted Graffiti) e os música portugueses Maria Reis e Tomé Silva, sobem até ao Theatro Circo, em Braga, e uma semana depois, a 28, descem até ao Teatro das Figuras, em Faro.

Qual é o logro sinistro que dá o nome ao disco?
É esta ideia de que, se formos suficientemente cuidadosos e espertos, se agirmos e planearmos as coisas de uma determinada maneira, podemos evitar arrepender-nos, cometer erros, causar dor aos outros e a nós próprios. Esse é o logro sinistro, de acordo com o álbum.
Musicalmente, no entanto, é capaz de ser o disco mais pop e solar que já fizeste. Onde se insere este trabalho, no contexto da tua obra?
Sinto que é mais um degrau que estou a subir. Há pontos de ligação com o Reset, com os últimos dois álbuns dos Animal Collective, até com o Buoys – é o inverso desse disco.
Em que sentido?
São discos de guitarras e ambos foram muito processados [digitalmente]. Só que, no Buoys, o objectivo era destruir qualquer som natural, e agora todo o processamento foi feito para destacar esse som natural.
E destaca-se.
Isso deve-se também à perspectiva do Josh [Dibb, ou Deakin, que co-produziu o disco]. Ele liga muito às letras e às melodias. Eu nem tanto. Se tivesse feito o disco sozinho, duvido que tivesse ficado assim. Mas é por isso que gosto de trabalhar com outras pessoas.
É curioso não teres mencionado há pouco o Person Pitch. Parece ter as mesmas referências: Beach Boys, a pop-rock dos 50s e 60s. A diferença é que é feito de samples e loops, enquanto este é um disco de guitarras, como dizias – e bem.
Talvez. Se bem que o Reset parece-me mais uma continuação do Person Pitch do que este.
Por também ser um disco de samples e loops?
Pois. Muitos dos samples no Person Pitch foram tirados de cenas rock antigas. Adoro esse tipo de música, e às vezes isso vem mais à tona. Contudo, o que oiço [no Sinister Grift] é sobretudo música country; o que chamamos de rock clássico nos EUA, Badfinger, Thin Lizzy e outras bandas que ouvia imenso no secundário; e reggae, mas mais dos finais dos 60, princípios dos 70s. Diria que essas são as grandes influências deste álbum. Não é a primeira vez que tudo isso se escuta num disco meu, porém nunca de forma tão visceral.
Diria que a country, o rock clássico e o reggae são as grandes influências deste disco
Há quanto tempo estás a trabalhar no disco com o Josh?
Desde Novembro de 2023. Na altura, passámos cinco semanas no meu estúdio, em Lisboa. Entretanto, meteu-se o Natal e, em Janeiro de 2024, o Josh começou a misturar. Depois, no início de Março, fizemos mais uma semana de gravações no estúdio dele [em Baltimore].
Além dele, neste disco, ouvimos também a tua filha Nadja, a Maria Reis, de quem és amigo há muitos anos, a Rivka Ravede de Spirit of the Beehive, com quem namoras, e os outros dois membros de Animal Collective. Porque decidiste trazer tantas pessoas com quem tens uma relação pessoal para dentro destas canções?
Talvez porque tinha tocado quase todos os instrumentos e estava farto de me ouvir. O Josh estava comigo desde o início; a seguir pedi ao Brian [Weitz, ou Geologist] para fazer um conjunto de sons, que nem era para usar no disco, mas acabámos por usá-los. E aí pensei que precisava encontrar um lugar para o Dave [Portner, vulgo Avey Tare, o único membro de Animal Collective que ainda não estava representado no disco]. Depois, naturalmente, comecei a pensar que queria isto ou aquilo, e que não era a melhor pessoa para fazê-lo.
Como por exemplo?
Não sei tocar guitarra lapsteel, então o Josh convidou o Walsh Kunkel para gravar essas partes. Também queria um solo de guitarra a sério, mesmo a abrir, e não sabia fazer isso, todavia o Patrick [Flegel] sabia e tive a sorte de as coisas se alinharem e de ele ter gravado a parte dele antes de sair o Diamond Jubilee [um dos mais elogiados discos do ano passado, que ele assinou como Cindy Lee], porque não sei se depois teria conseguido arranjar tempo para mim. Foi daquelas ocasiões em que tudo correu bem. O Merriweather Post Pavilion [de Animal Collective] foi igual. E o Reset [com Sonic Boom] também.Tudo fluiu naturalmente. Se tinha uma ideia, sabia com quem falar, e todos alinhavam logo.

Isso vai ao encontro do que falámos ao início, do tal logro sinistro, de as coisas não dependerem só de nós e de tomarmos as decisões certas. Esse parece-me um dos temas do disco: lembrar-nos de que não estamos sozinhos.
[Há uma] comunidade.
É um disco sobre comunidade, exacto. Pensei que isso fosse uma projecção minha.
De todo. Era algo que estava muito presente durante a gravação. Não só na música, mas em geral.
Precisamos, mais do que nunca, dessa entreajuda.
Isto começou com o Reset. Senti que há certas coisas em falta no mundo, e sei que não vou salvar quem quer que seja, mas posso tentar representá-las na minha música: perdão, comunidade, ideias que nos podem ser úteis. Ou que possam, pelo menos, melhorar o dia de alguém. Se podes melhorar o que quer que seja, porque é que não hás-de fazê-lo?
Mais gente devia pensar assim.
Contudo, passa-se o oposto. Há muito aquilo a que costumo chamar desportos em equipa. Eu estou nesta equipa, tu estás naquela equipa, e só sabemos que não gostamos da outra equipa. Isso, para mim, não faz sentido.
Se podes melhorar o que quer que seja, porque é que não hás-de fazê-lo?
Voltando agora aos convidados do disco: como é que a tua filha, a Nadja, aparece aqui.
Há uma faixa dos Louvin Brothers, creio que a primeira do Satan Is Real, em que há um refrão, a seguir ele meio que conta uma história e fala um bocado, depois o refrão volta a ser cantado e ele volta a falar. E eu queria fazer algo parecido. Pensei logo em falar com a Nadja, só que entretanto desisti da ideia. Ainda pensei que talvez o Pete [Kember, ou Sonic Boom] pudesse fazer a parte falada, todavia acabei por pedir ao Dean Blunt. Ele aceitou e enviei-lhe a faixa, porém não conseguiu encaixar-se na canção.
Não era a pessoa certa.
Senti que era o destino a dizer-me que devia voltar ao princípio, e foi aí que pedi à Nadja para escrever um par de poemas. Não lhe indiquei qualquer uma direcção, disse-lhe só para escrever sobre o que estivesse a sentir. Ela fez três ou quatro poemas e este foi o que, temática e estruturalmente, ao nível do ritmo das palavras e da métrica, encaixou melhor. Ela veio ao estúdio, despachou a parte dela numa hora e… Agora não quer ouvir a canção.
A sério?
Não. Só quer receber o dinheiro e ir à vida dela.
Pagaste-lhe?
Sim [risos]. Paguei pelo trabalho dela, como ao resto das pessoas. Fizemos-lhe uma conta de compositora e tudo. Para que ela vá recebendo algum dinheiro até ao fim da vida.
Ela está com que idade?
Tem 19.
Porra, o tempo passa num instante. Há quanto tempo vives cá?
Vai fazer 21 anos em Maio.
Mudaste-te para Lisboa por causa de uma mulher. Depois nasceram os vossos filhos. Entretanto separaram-se, agora a tua filha já é adulta e o outro é um adolescente…
Tem 14 anos.

Disseste-me há uns anos, que querias ficar aqui para sempre. Ainda pensas assim?
Está tudo mais em aberto do que há uns anos. Lisboa ainda é o meu sítio favorito no mundo e continua a ser difícil imaginar-me a viver noutro lado. Mas já não é impossível. Antes era.
Já não tens tantas coisas a prender-te a Portugal.
E a minha mãe já não vai para nova. Gostava de passar mais tempo com ela. Idealmente, no entanto, teria alguma flexibilidade. Ia e vinha. Lisboa é uma cidade especial.
Ainda sentes isso, apesar de todas as mudanças que tem sofrido?
Há um espírito que resiste, uma chama que ainda não foi apagada.
Por muito que tentem apagá-la.
Há muitas coisas a morrer, contudo, outras estão constantemente a nascer.
É pena que o que nasça não seja tão…
Não é igual. E o que se foi não volta. Temos de aproveitar o que temos agora, porque um dia vai desaparecer.
Na cidade e na vida.
Aproveitem cada dia. Imploro-vos.
Há um espírito que resiste, uma chama que ainda não foi apagada [em Lisboa]
Já tens nacionalidade portuguesa?
Tecnicamente, ainda não tenho a cidadania. Mas já podia pedir.
Já podias pedi-la há muito tempo.
Pois. Mudei-me para cá com 25 anos. Mais quatro e serei tão português como americano.
São quase tantos anos quanto o Tomé tem de vida.
Sim. Dizemos, a brincar, que o Tomé é o meu filho. Lembra-me muito de mim.
É curioso dizeres isso. Porque ele toca bateria, como tu.
Toca um pouco de tudo. E também faz música electrónica. É tão, mas tão talentoso.
Foi por isso que o convidaste para se juntar à banda que te acompanha ao vivo?
Sim. Sabia que precisava de um baterista, e queria que toda a gente estivesse cá. Caso contrário, logisticamente, seria um pesadelo.
Isso quer dizer que o Tim Koh, que esteve contigo na ZDB, já não é o teu baixista?
Ainda é ele. E a Maria Reis na guitarra.
O Tim também vive cá?
Mudou-se por causa disto. Se bem que sente saudades de casa. Está muito entusiasmado com a digressão americana.
Imagino.
Quando decidi formar esta banda, o Tim foi a primeira pessoa com quem falei. E tive a sorte de ele aceitar. Para mim, estes três são as maiores estrelas. Tenho os melhores do mundo a tocar comigo, tornam tudo muito mais fácil. Além disso, pessoalmente, damos-nos mesmo bem. O ambiente é óptimo, e isso é super importante para mim. Má onda em digressão é o pior, manda toda a gente a baixo. Rirmos das mesmas coisas é bastante importante.

Aqueles concertos, em Dezembro, foram um ensaio para a actual digressão?
De certa forma. Sabíamos que, do ponto de vista musical, estávamos prontos antes desses espectáculos. No entanto, foram mais uma espécie de ensaio para tudo o resto. Para percebermos quantas pessoas são necessárias para nos ajudarem com a logística da tour, de que tipo de veículo precisamos, coisas assim. E percebemos muito rapidamente o que funcionava e o que não funcionava, o que nos fazia falta e o que era desnecessário.
Enquanto Panda Bear, é a primeira vez que tens uma banda a acompanhar-te ao vivo, ou não?
Sim. E é muito mais divertido. Gosto muito mais de tocar com um grupo do que sozinho. Não só porque há menos pressão, mas porque acontecem coisas estranhas. Se sou só eu, está tudo em piloto automático, já sei o que tenho de fazer antes de ser altura de fazê-lo. Quando tocas com outras pessoas, há sempre surpresas. Uma banda é um organismo vivo. Para não falar do lado social. Dar concertos sozinho pode ser muito duro, sinto falta de…
Comunidade. Lá está outra vez o tema do álbum.
É o mais importante.
Capitólio. 20 Mar (Qui). 21.30. 25€
Este é o nosso Império Romano: siga-nos no TikTok
📻 Antigamente é que era bom? Siga-nos no Facebook