[title]
Depois de se estrear em 1996, na Broadway, Rent tornou-se um dos musicais mais conhecidos do teatro musical. Como nunca tinha acontecido antes numa produção do género, a peça decidiu levar para palco questões que permeavam o quotidiano da comunidade LGBTQ nova-iorquina, nos anos 90. Da propagação da SIDA e do direito à habitação à precariedade à qual muitos artistas se viam sujeitos, Rent veio gritar (e cantar) a plenos pulmões sobre o que é tentar encontrar a felicidade, amizade e amor, ao mesmo tempo que se navega por uma vida condicionada, logo à partida, por tanto.
No mesmo ano em que foi apresentado pela primeira vez, o espectáculo, escrito pelo dramaturgo e compositor Jonathan Larson e encenado por Michael Greif, foi galardoado com quatro prémios Tony e um Pulitzer, tendo sido, desde cedo, um sucesso. Depois de muito andar por salas de teatro desse mundo fora, chega ao Teatro Variedades, numa versão portuguesa produzida pela MTL (Musical Theatre Lisbon) e encenada por Sissi Martins. Estreia-se esta quarta-feira, 26 de Março, e fica em cena até ao dia 27 de Abril.
“O momento que nós vivemos é tão particular a nível mundial que este espectáculo é novamente muito urgente. Esta história tem de ser contada. Esta Nova Iorque dos anos 90 podia ser Lisboa de 2025”, começa por dizer Martim Galamba, um dos fundadores da MTL, ao lado de Sissi Martins e Rúben Madureira, e produtor do espectáculo, acerca da importância e razão pela qual a MTL quis trazer o musical a Portugal. “Não tem só temas nacionais, como a crise da habitação. Este espectáculo enaltece o valor da comunidade, de que as pessoas todas juntas é que conseguem ultrapassar os maiores obstáculos e tentar encontrar a felicidade, o que quer que isso signifique. De facto, é na comunidade que conseguimos superar-nos. E vivemos num mundo em que as pessoas estão cada vez mais divididas, de costas voltadas, muitas vezes sem falarem umas com as outras, e este espectáculo enaltece um valor que é muito urgente para todas as pessoas.”

Inspirado em La bohème, ópera de Giacomo Puccini, do final do século XIX, Rent dá-nos um ano na vida de um grupo de amigos, artistas e activistas, de East Village. “Jonathan Larson quis recriar um bocadinho o que era a sua vida pessoal e identificou cinco amigos, sendo que ele se inclui na história através da personagem do Mark, que é quase como se fosse o narrador desta peça. E, inspirado na La bohème, recriou uma espécie de paralelismo entre a ópera e a realidade que ele vivia na altura. Portanto, falamos de amor, empatia, solidariedade entre amigos e segundas famílias que, às vezes, recebemos na nossa vida”, explica a encenadora, Sissi Martins, depois de um ensaio no Variedades.
Em palco, os cartazes e placares multiplicam-se – a anunciar quartos para alugar ou lojas de conveniência e oficinas a poucos metros de distância. No fundo, o que parece ser um monte de tralha, umas bicicletas e uns caixotes contra as paredes. Estamos numa rua de Nova Iorque, provavelmente na zona de East Village, onde encontramos uma dezena de pessoas sentadas a uma mesa comprida, de frente para o público. Elas vestem calças de cabedal, saias por cima de collants coloridas, perneiras e tops de lantejoulas. Eles, na sua maioria mais sóbrios, vestem t-shirts, camisolas de malha e calças de ganga. E, sentados ou em pé em cima da mesa, a dançar e a beijar, cantam sobre aquilo que elas são e que querem ser, sobre o que os apaixona e também o que os assusta, em jeito de manifesto e num confronto contra o poder.

E, depois, chega-nos a famosa “Seasons of Love”, talvez o hino mais reconhecível da história destes amigos. “[Esta cena] serve para enaltecer uma história, que é como é que nós vivemos um ano da nossa vida, como é que medimos o nosso ano – é em metros, milhas, é nas viagens que fazemos, é no café que bebemos, é nas festas de Natal, é no telefonema do amigo… Como é que medimos um ano da nossa vida perante algo que nos fragiliza?”, diz Sissi Martins, sublinhando como esta ideia da celebração da vida e do amor acabou por ser central na sua encenação, que nesse campo teve orientação de Michael Greif, encenador do original, que acompanhou de perto esta produção durante uma semana de ensaios.
“Ele fez várias coisas. Falou bastante com a Sissi, sobre a dramaturgia, a encenação, os pontos de vista que a Sissi tinha sobre o espectáculo. Também fez direcção de actores e fizemos várias leituras conjuntas do espectáculo inteiro, que é a forma como o Michael diz que gosta mais de ouvir o espectáculo. E, portanto, fizemos esse trabalho em várias vertentes e também a nível cenográfico, estético, de figurinos e a nível musical”, conta Martim Galamba.

Apenas a algumas horas de estrear, já são várias as datas de apresentação de Rent que se encontram practicamente esgotadas, o que se deve, principalmente, ao interesse cada vez mais crescente do público pelo teatro musical, acredita o produtor. “O Rent é uma peça icónica, que revolucionou o teatro musical, que revolucionou o teatro por todo o mundo e que recebeu imensos prémios. Portanto, só o facto de o espectáculo vir a Portugal e ter a sua primeira versão totalmente em português, acho que só esse facto é muito apelativo para o público.”
Depois de terminada a carreira no Teatro Variedades, a maior vontade deste elenco e desta equipa de produção e encenação seria mesmo continuar com o musical em cena durante mais semanas ou até meses. “Em Portugal, estamos tão habituados a ter temporadas tão curtas que, de facto, faz falta. O Variedades já tem uma linguagem um bocadinho mais próxima disso, que é ter uma programação mais extensa. Mas, mesmo assim, cinco semanas – se compararmos com anos... E já nem peço anos, mas alguns meses seria outra coisa, porque de facto o passa-palavra é a melhor publicidade”, remata.
Teatro Variedades (Parque Mayer). 26 Mar-27 Abr. Qua-Sáb 21.00, Sáb-Dom 16.00. 20€
🏖️ Já comprou a Time Out Lisboa, com 20 viagens para fazer em 2025?
🏃 O último é um ovo podre: cruze a meta no Facebook, Instagram e Whatsapp