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Na Doca de Belém, na mais antiga associação náutica da Península Ibérica, abriu o Bonança, imponente e bonito, depois de um grande investimento de diferentes sócios, nem todos ligados à restauração, que viram ali a oportunidade de criar um “espaço de alegria” e de “trazer mais vida à beira-rio”. O majestoso mural que abraça a sala, pintado em 1940 e que retrata o cortejo da embaixada de D. Manuel ao Papa Leão X em 1514, agora recuperado, serve de mote. É a viagem de Vasco da Gama à Índia que é celebrada na cozinha, embora de forma subtil. À noite, aos fins-de-semana, há ainda espaço para dançar.
“Não podemos fugir ao facto de termos um mural lindo e também ele estar ligado a essa história”, começa por dizer Salvador Sobral, o sócio mais presente no restaurante. “Nós olhamos pela janela e somos invadidos pela viagem: os Jerónimos, o Padrão dos Descobrimentos, a Torre Belém... E depois o nosso mural aqui dentro, que tem muito interesse para nós e que nos vem a ajudar a construir esta história”, justifica. “Quando o recuperámos ganhou uma dimensão, uma vida, que não tinha.”

No edifício da Associação Naval de Lisboa, é impossível ficar indiferente à pintura, recuperada pelo WOA – Way of Arts. Pode comer-se logo ali, mas há mais mesas no piso em cima, sem que se perca a vista para o mural – o pé direito tem cerca de dez metros e ao todo há 150 lugares (sem contar com a esplanada que já existe, mas ainda não está a funcionar). Em cima, na verdade, ganha-se também a vista para o rio. “Um dos desafios foi criar moods completamente diferentes, dinâmicas diferentes porque os espaços são diferentes”, aponta Salvador Sobral – era dele, por exemplo, o El Clandestino e o Poké House. No Bonança, está, entre outros sócios, com Diogo Sousa Coutinho e Filipe Farinha Santos. “Tem graça porque a viagem de ida e volta à Índia demorou três anos e foi obviamente uma viagem dura. A nossa aqui também foi uma viagem dura que demorou três anos”, aponta. Bonança, o nome, vem daí também.

Quando aqui chegaram, depois de terem ficado a saber da existência do espaço e do concurso, encontraram um edifício em mau estado de conservação. “Estava completamente destruído, com os tectos a caírem, vidros partidos, estava ao abandono”, recorda. “Nós mudámos a estrutura do edifício, recuperámos as fachadas todas. Não é só o que se vê aqui dentro. Houve uma recuperação de um património histórico”, garante, contando que esse tempo de obra permitiu também afinar a ideia do que seria o restaurante. “O projecto foi mudando com o tempo e isso é uma das coisas interessantes. Fomos crescendo, aproveitando e tentando ver o lado positivo das coisas”, diz, revelando que o “projecto mudou consideravelmente também em termos de fasquia e de investimento”. “Nós olhámos para um projecto muito menos ambicioso e depois, à medida que foi acontecendo, fomos percebendo que isto merecia ser muito mais ambicioso.”

Salvador Sobral refere-se à recuperação, arquitectura e todo o design de interiores, onde se denotam os motivos navais, sem que pareçam forçados, não fosse o espaço da Associação Naval de Lisboa – há, inclusive, uma sala mais reservada, com lareira e vista para o rio, que é uma homenagem ao clube. “Uma das coisas interessantes era sentir que entrávamos e sentíamos que estávamos dentro de um barco e ao mesmo tempo num clube”, destaca, lembrando que “isto continua a ser um clube”. “É um clube e um restaurante.”

Na cozinha, foi aplicada a mesma pretensão. “Se não houvesse exigência na parte de gastronomia era porque estávamos a ver mal o projecto. Isto é um restaurante”, reforça, elogiando o trabalho do chef Carlos Nunes, que soma no currículo passagens pelas cozinhas do 100 Maneiras, do Arola, do Bon Bon, do Conceito ou, mais recentemente, do Fifty Seconds.
“Nós tínhamos uma ideia do que queríamos, mas da mesma forma que houve uma série de coisas que maturaram com o tempo, nós também fomos maturando a parte gastronómica. Não só porque quanto mais tempo tens, mais ideias surgem, mas também porque trabalhámos com o Carlos, que é extraordinário e que embarcou na viagem connosco, trazendo muito dele, da sua visão e da sua interpretação da nossa visão”, completa.

O peixe e o marisco estão na base de tudo. “É uma cozinha de homenagem ao mar”, afirma Salvador. “Como temos cozinha de lenha vamos também buscar bons cortes de carne e trabalhamos muito os arrozes. Obviamente, não fugimos a algumas tendências, e é neste equilíbrio de irmos buscar as origens, mas também de não estarmos impedidos dos toques do mundo que nos situamos”, acrescenta, destacando, por exemplo, o uso de especiarias e a existência de alguma influência oriental.

Veja-se a barriga de atum rabilho com ponzu e wasabi (28€) ou o carpacio de camarão vermelho com ovas de truta e vinagrete de yuzu kosho (28€). Nas entradas, com várias opções para partilhar, destacam-se também o bife tártaro com romesco, gema e pão frito (18€) ou a salada de cogumelos silvestres com sabayon de azeite e batata doce crocante (17€).

Passando para os principais, o menu é simples: massada de camarão com manteiga de ouriço do mar e gamba cristal (27€); peixe do dia com molho de caril verde, ervas finas e pão naam (29€); e entrecôte grelhado, molho bearnês e batata frita (31€).
Por fim, os arrozes, que Carlos Nunes, confia que serão das estrelas do Bonança. Há um malandro de berbigão com peixe da lota, salicórnia e coentros (32€) e outro de cogumelos silvestres com emulsão de manteiga tostada (26€). Não falta o arroz de carabineiro com limão e harissa (59€/duas pessoas) e há ainda um arroz de frango do campo com miúdos (44€/duas pessoas).

“Temos de ter os clássicos, temos de ter os pratos que as pessoas comem e lembram-se do Bonança”, acredita o chef. “Queremos que as pessoas digam: vou ao Bonança comer aquele prato.” Quando olha para o menu, ainda em aperfeiçoamento, salvaguarda, Carlos explica como “começa mais técnico nas entradas frias” para descomplicar a seguir. “Eu gosto de alta cozinha, mas já não é o que eu gosto de fazer. Claro que tenho algumas nuances mais técnicas, mas gosto mais desta abordagem de conforto”, confidencia.

Esse trabalho sente-se igualmente nas sobremesas, do chocolate negro com gelado de avelã e cacau (9€) ao abacaxi grelhado com gengibre e merengue ácido (7,50€) até ao pão de ló com azeite, flor de sal e gelado de laranja (12€).
Para Abril, Salvador Sobral tenciona apresentar uma programação cultural, fazendo uso da valência do espaço, com concertos, além de DJs às quintas, sextas e sábados. “Nós assumimos desde o início que isto era um projecto que fazia sentido ir para além do que é a gastronomia, tem de ser um projecto transversal, cultural. Vamos começar devagarinho”, adianta o responsável. “No início vai ser uma coisa que vamos oferecer ao nosso público e depois vamos começar a fazer concertos com bilhete – músicas do mundo, que tenham ligação à viagem, desde o fado à música africana, à música brasileira”, enumera.

A avançar já estão as noites animadas em que é possível ficar a beber um copo – e há uma forte aposta na coquetalaria – e dançar. “Isto vai ser um sítio de diversão, onde as pessoas podem dançar, mas não é uma discoteca, não queremos ser nada disso, mas temos esse lado”, defende Salvador, seguro de que o Bonança vem dar uma nova vida à zona ribeirinha de Belém. “Queremos ser agentes positivos nessa mudança. Faz todo o sentido trazermos cada vez mais vida a este lado do rio. E a verdade é que temos cada vez mais restaurantes a mudarem-se para aqui. O Zero Zero, por exemplo, está aqui à frente, a abrir um projecto enorme [no antigo Espaço Espelho d’Água].”
Associação Naval de Lisboa, Doca de Belém. Qua-Qui 12.00-00.00, Sex-Sáb 12.00-02.00, Dom 12.00-00.00
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