Há uma espécie de pináculo da qualidade, aquela que, não descorando da técnica, nos arrebata essencialmente pelo afeto, onde a satisfação se desencadeia a partir de um qualquer lugar germinal, ao ponto de pouco nos aprazer dizer grandes coisas sobre. É, de alguma forma, a definição do caseiro, da familiaridade. Não é de tradução fácil e talvez careça de utilidade maior, mas não fará mal que, de quando em vez, nos continuemos a conseguir espantar com o que é casa. Digo tudo isto com a ideia no recente reencontro que tive com a Confeitaria Nacional, no primeiro dia em que fui assolada por uma vontade inadiável de trincar Natal. Fui direitinha à belíssima centenária instituição e vim com uma caixa cheia das minhas dileções da época.
E que vos posso dizer? Pouco, mas tudo: recomendo como quem diz que o melhor arroz de tomate é o da avó. A rabanada (1,75€) até chegou a causar-me desconfiança, de fina e direitinha que era (integro a facção das rabanadas de cacete, em vez de pão de forma), mas à trinca, lá vislumbrei a estrela da natividade. Conseguia concentrar, na sua parca altura, uma suculência inescapável, sem ser papa, e mantendo alguma resistência maior na côdea, percurso de trinca de que gosto muito. Do sonho (1,65€) destaco o travo lindo a laranja. Não é uma opção inusitada, mas é menos comum e, de facto, acho que funciona maravilhosamente (a laranja é bem poligâmica no que toca aos sabores de Natal). Não era daqueles mais ocos e estaladiços, mas também não chegava ao espectro oposto, dos compactos e pesados, tendo massa em presença suficiente para nela provarmos tudo o que queremos de um sonho. Para o fim deixei as preferências e pelas quais, por mim, podia ser Natal, não só quando um homem quer, mas, eventualmente, todos os dias: as azevias (1,95€). Nem consegui decidir se gostei mais da de batata doce ou da de grão. Em ambas, a massa estava rigorosamente tenra. O creme de batata era tão leve, com um limãozinho de fundo e, volta e meia, a amêndoa bem miúda, quase sem se dar por ela, a espreitar só quando lhe apetecia. A de grão, igualmente fresca nos travos, era mais densa, mais gulosa.
Os maiores desafios do doce de natal nem pareceram, aqui, desafios: o açúcar não gritava e as frituras estavam bem competentes, sem óleos em excesso ou queimados. Que bom que é ainda haver, na baixa Lisboeta, onde provar o Natal a saber ao que gostamos que saiba.